sexta-feira, 6 de maio de 2011

Desvario

Bateu na mesma tecla repetidas vezes. O piano que ganhara quando ainda tinha 6 anos estava gasto, mas ainda soava como novo.
Passara as últimas horas, os últimos dias e meses sentada ali, apenas tocando, sentindo.
Precisava incorporar, a música ia de tons mais leves e delicados aos mais ousados e violentos. Queria sentir e interpretar como nunca houvera feito...
Passados alguns dias, lá estava, sentada diante do longo e reluzente piano, diante de milhares de pessoas. O tão esperado momento, seu momento.
Tocou uma adaptação de Tchaikovsky, seus dedos percorriam o teclado com leveza e os pés pressionavam o pedal com certa agressividade. A música saiu no tom esperado, ela estava realizada e não conseguia se conter.
Ao fim, levantou-se e foi agradecer a platéia que aplaudia ferozmente. Deixou o palco.
Seu objetivo fora alcançado, então por que continuava a ouvir aquelas vozes? Por que na sua cabeça ecoavam sentenças de desaprovação? Como se todo o seu esforço não fora válido, como se ainda era preciso mais?
Parecia não ter fim, e quem sabe não tinha mesmo.


domingo, 20 de março de 2011

A permuta.

Observei durante anos uma adorável moça que sempre ia ao cemitério aos domingos e passava horas conversando com certo túmulo. Despertou-me grande curiosidade, e certo dia resolvi ir lá, apenas ver se estava bem.
Conversamos durante horas e ela contou-me que o túmulo era de sua irmã. Uma história extraordinária. Eram gêmeas siamesas e durante quinze anos viveram grudados uma á outra pelo abdômen.
A rotina já era costumeira, não ligavam muito por estarem grudadas, bom, pelo menos até a sua adolescência. Logo, a moça começou a se interessar por um rapaz e quis privacidade. Pesquisou durante um longo tempo sobre a cirurgia de separação. Descobriu que era possível e sem muitos danos. Passou meses tentando convencer a irmã, que de maneira alguma queria a separação, temia a morte, pois sempre foi a mais frágil e contraia doenças facilmente, o medo de morrer era iminente e ela se recusava a fazer a cirurgia. Mas seu amor pela irmã e vendo-a querendo levar a vida adiante, uma vida só dela, a fez aceitar a cirurgia.
Pediram de aniversário e assim foi feito. A moça contou-me que acordou em uma cama de solteiro, na qual sua irmã não estava. A alegria tomou conta dela por vários minutos pensando no que ia fazer daquele momento em diante, até que lembrou de sua irmã, queria saber se ela também estava se sentindo feliz. A mãe apenas chorou e a abraçou contando que a irmã não tinha resistido à cirurgia e falecido.
Desde então fazia visitas freqüentes ao túmulo para contar a irmã tudo que havia conquistado e tentar amenizar o seu sentimento de culpa.
Deixei-a lá, conversando com o túmulo e voltei ao trabalho...
- Olha querida irmã, um homem interessado em nossa extraordinária história, aposto que ele adoraria conhecê-la e ver o quanto é maravilhosa.
A falta que minha irmã me faz é imensa, não pensei nela, em seus problemas de saúde, apenas em mim mesma, sua morte é culpa do meu egoísmo.
De repente o céu inteiro se fechou, uma chuva torrencial começou a cair, não pensei em me retirar, queria apenas ficar ali por mais alguns intantes, até que um raio me atingiu.
Minutos depois, meu corpo se levantou, olhei para o túmulo, o lugar que passei muitos anos da minha jovem vida, sorri malignamente:
- É querida irmã, agora é a minha vez de viver.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Imensidão.

"Porque eu sou do tamanho daquilo que sinto, que vejo e que faço, não do tamanho que as pessoas me enxergam." Carlos Drummond de Andrade

Não consigo explicar a imensidão dessas palavras. Você, leitor, pode não achar, mas pra mim, significam mais do que apenas palavras, uma lição de vida.
Aquela mania insistente de se redimir ao que os outros pensam e falam de você.
Suas ações vão mudando, seu eu se reprime, sua personalidade se perde e acaba se tornando o que a sociedade quer.
Já passei por isso e tenho certeza que muitos já passaram. Falar e agir da maneira que a sociedade dita.
Com o tempo, percebi que era mais que isso, não precisava seguir tais ditaduras, que vão desde as coisas mais superficiais até as mais profundas.
Não preciso me encaixar na sociedade, preciso mesmo é ser o que quero ser. Agir da maneira que quero agir e buscar os meus sonhos.
É baseado nisso que eu busco a minha felicidade, vou atrás do que acredito e do que sonho, por que afinal, meu tamanho é só uma mera demonstração do que eu sou. O que sou de verdade é mil vezes maior, e não preciso provar isso a ninguém, só pra mim mesma.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O último suspiro.

Palavras são apenas palavras. Ações são apenas ações.
Deixei de acreditar nas minhas próprias palavras. Faz um tempo já. E posso dizer que foi uma das decisões mais desgraçadas que já tomei.
A falta de crença em você mesmo e nas suas capacidades gera a desconfiança. Extremamente desconfiante. Acho que é a melhor definição pra mim.
O pior de tudo é o medo que se cria. De fracassar, de falhar, de decepcionar. Medo de si mesmo. O pior de todos os medos, não tem como fugir do seu subconsciente. Aquelas palavras, aqueles suspiros vão soprar no seu ouvido repetidas vezes, até que você dê de fato o seu último suspiro...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A vida ás vezes engana.

Seria um dia normal, se não fosse pelas nuvens carregadas e o aniversário de 2 anos de namoro.
A garota levantou-se e começou a se preparar para o encontro que teria mais tarde.
Mal podia esperar pra vê-lo, senti-lo e abraçá-lo. Andavam distantes, mas tinha certeza que o amor ainda existia.
Escreveu uma carta, coisa que adorava fazer e ele adorava lê-las. Vestiu-se e postou-se a espera o horário.
Nada dele ligar, dar notícia pelo menos. Imaginou uma surpresa, ficou extremamente animada.
Deu a hora. Ligava e ligava, ele não atendia. Sentiu um aperto no peito, isso não estava certo.
Resolveu ir visitá-lo. Chegando lá, bateu uma vez, duas, três, e nada dele aparecer.
Alguns minutos depois, a porta se abre e a mãe dele sai, chorando desesperadamente. Abraçam-se. Ficam alguns minutos nessa posição e a garota sem saber começa a chorar também, algo ruim tinha acontecido.
Começaram a chegar policiais e ambulâncias e ela já esperando o pior pergunta:
"O que aconteceu? Alguém me diz, por favor!"
A mãe não consegue falar, apenas entrega um pequeno bilhete, levemente dobrado, a letra era do amado:
"Nada mais fazia sentido. Eu vivenciava poucos momentos de alegria, muitos deles ao seu lado. Seus sorrisos, seus abraços e seus beijos. Mas quero que entenda, não estava aguentando mais, sou fraco, atrapalhava todos a minha volta. Perdoe-me, te amo para sempre."
Cada palavra lida uma lágrima escorria, o coração batia cada vez mais devagar, como ele pode fazer isso? Correu para dentro da casa e o encontrou deitado no meio da sala sendo examinado. Ignorou todos a sua volta, só queria abraçá-lo. Ficou lá, talvez por horas, chorando e falando tudo que iria falar no encontro. Ele certamente ouviria...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Os cuidadosos é que ganham.

Ouviu passos. Olhou para trás apreensiva e não viu nada nem ninguém. Voltou a caminhar.
Cada passo que dava o barulho aumentava. O medo tomou conta de si, sabia que não deveria ter saído tão tarde.
De repente, um barulho ensurdecedor, um grito pra ser mais exata, a assustou. Agudo e longo. O medo apenas crescia e crescia. Tomou coragem e olhou para trás novamente.
O que viu, foi pior do que qualquer coisa que já tinha visto em toda a sua vida, pior do que seus maiores pesadelos.
Foi em direção á coisa, passos pequenos e intimidados. A respiração cada vez mais cansada mostrava todo o seu pavor. A coisa não se mexia, isso encheu-a de coragem.
Assim que estavam frente a frente, o pavor já havia deixado-a imóvel. A coisa pegou-a e engoliu-a em uma só mordida.
Nunca mais ouviu-se falar da pobre menina.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A imensidão açúcarada.

Contava, 1,2,3,4...
Se perdeu. Uma imensidão azul salpicada de branco.
Queria poder abrir a janela e pular de uma em uma, deitar, rolar...
A vista nunca lhe foi tão bela.
O sol, iluminava os olhinhos brilhantes e de repente, uma lágrima a rolar.
A pobre garota chorava, diante da bela paisagem.
Chorava por amor, chorava por saudade, chorava e chorava,
mas o coração sorria, pois sabia que um dia iria voltar.
Um dia iria poder voar por entre as nuvens...